A CRISE DO SISTEMA PENITENCIÁRIO E A PANDEMIA
Evandro Machado
Policial Penal do Rio de Janeiro.
Em 04.05.2020.
Não é de hoje que todos sabem que o sistema penitenciário brasileiro está superlotado. No Rio de Janeiro, por exemplo, onde deveria caber apenas um preso, dormem três.
O clima é sempre tenso. Há de se ter talento para trabalhar no Sistema…
E mesmo assim, em muitas cadeias, a disciplina ainda é férrea. Mas tudo tem seus limites.
Nas Unidades Prisionais onde estão custodiados os chefões do crime organizado, e isto em todo o país, os estados são forçados a optar entre enfrentar o crime, custe o que custar, ou recuar, fazendo toda a sorte de concessões sobretudo às facções criminosas, porque preso sem facção é um zero à esquerda para o Sistema.
Com o risco de contaminação por COVID 19 no Sistema, as administrações estaduais, talvez com a exceção do Ceará, optaram por uma política de não-confronto com o crime organizado durante a pandemia. Mas, como dizia meu pai, “quem muito se abaixa, acaba mostrando as nádegas”.
Os governadores estão de joelhos. Não querem confronto com o crime organizado. Sabem que o Sistema é um vulcão que opera já no limite de suas possibilidades. E essa pandemia pode fazer o Sistema explodir.
Acontece que o crime organizado também sabe disso, e joga com as cartas que tem na mesa. A principal delas, a covardia dos governantes. E não é pra menos! Uma ordem conjunta de todas as facções criminosas ordenando “tocar o terror” nos centros urbanos e esse país vira um caos.
O Estado brasileiro se vê forçado a se render diante de todas essas evidências. E aqui entre nós: só os bolsominions ainda duvidam que Brasília não tenha vínculo nenhum com uma dessas facções… “Tá tudo dominado, meu chefe!”, é o que diz a malandragem no cárcere.
E bota dominado nisso! Foi difícil suspender as visitas. Somente com o aval das facções, as visitas foram suspensas. Mas a entrada de bolsas com comidas e outras bugigangas, nem pensar! Disso eles não abriram mão. E tem que ter cantina. E tem que autorizar a entrada de dinheiro na cadeia. E tem que autorizar smartTV, e por aí vai.
O governo federal já deixou claro que não é com ele. A última esperança que tínhamos “pediu pra sair”, mas hoje cumpre um papel fundamental na desmistificação do Messias, prestando uma contribuição patriótica para que o povo brasileiro perceba que tudo era mentira.
“Tá tudo dominado, meu chefe!”…
No conflito entre o mar e o rochedo, como diz o ditado, quem se ferra é o marisco. E o marisco somos nós, Policias Penais.
Optando por favorecer a massa carcerária, as administrações estaduais colocaram os Policiais Penais que atuam ‘na ponta da lança” do Sistema numa situação dramática. Cada bolsa que entra numa Unidade Prisional carrega milhões de vírus. Cada contato entre nossos companheiros e companheiras de equipes de revista com visitantes, que agora só trazem bolsas, expõem esses Policias Penais a riscos de contaminação DESNECESSÁRIOS.
Ah!... se tivéssemos governantes menos covardes… Como seria bom...
Ninguém ousou obrigar o preso a usar máscaras. Ninguém ousou dizer para o preso que a comida que ele teria que consumir nesse período seria apenas a comida fornecida pelo Sistema. Ninguém ousou dizer que não haveria cantinas nesse período. Ninguém ousou incomodar a massa carcerária. Ninguém ousou blindar o Sistema por todos os lados.
Mas é fato que dificuldades de toda ordem foram colocadas para os Policiais Penais pertencentes ao grupo de risco (idosos, hipertensos, diabéticos, etc.) ficarem em casa, protegidos. Como afirmou, pouco antes de morrer, um dos nossos companheiros contaminado pelo COVID 19: “Eles acham que somos de ferro, que suportamos tudo e que somos apenas um número de matrícula no Sistema.”.
A cada dia que passa, o Covid 19 se espraia nas cadeias. O número de mortes e baixas entre os Policiais Penais cresce a olhos vistos em todo o país. Mas as administrações escondem os números, e a sociedade civil, bem…, não está nem aí pra isso, como nunca esteve. Somos corruptos, somos torturadores, e se o que acontece fica entre as paredes dos presídios, dane-se!
Mas ainda há tempo de se reverter isso. Pouco tempo, seguramente. Mas, sinceramente, não creio que as mudanças virão de livre e espontânea vontade. Os governantes serão obrigados a mudar o rumo das coisas porque o problema tende a se agravar. Hoje, uma facção elimina um contaminado por covid 19, colaborando com a administração estadual. Mas e quando o número de contaminados aumentar vertiginosamente? Como o Estado vai explicar essas estranhas mortes nos presídios? E quando boa parte dos Policias Penais já não puder mais trabalhar porque ou está em isolamento ou morta?
E se os Policias Penais resolverem dizer BASTA!…
Os governos estaduais dialogam com as facções criminosas. Poderiam dialogar também com os Policiais Penais. Cedo ou tarde, serão obrigados a fazê-lo.
Eles estão de passagem pelo Estado. Nós, Policias Penais, SOMOS O ESTADO.
