Ex-secretário era sócio de empresa que pagou propina a conselheiros de Contas
Astério Pereira dos Santos, ex-secretário nacional de Justiça, foi preso nesta quinta-feira (5), em casa, no Leblon.
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Astério Pereira dos Santos
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Foto: André Coelho - O Globo/Arquivo
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O ex-secretário Nacional de Justiça do governo Temer Astério
Pereira dos Santos era sócio de empresa fornecedora da Secretaria de
Administração Penitenciária (Seap) do Rio que teria repassado propinas a conselheiros
do Tribunal de Contas do Estado, indica o Ministério Público Federal.
Ao representar pela nova fase da Lava Jato que prendeu
Astério, ex-procurador de Justiça do Ministério Público do Rio, na manhã desta
quinta-feira, 5, a Procuradoria alegou que ele "valia-se de autoridade
exercida como Secretário de Estado" para beneficiar a empresa, e que seu
sócio, Carlson Ruy Ferreira, era responsável por recolher propinas e pagar
agentes públicos.
As informações constam da decisão do juiz Marcelo Bretas, da
7ª Vara Federal Criminal do Rio, o juiz da Lava Jato no Estado. O magistrado
decretou a prisão de Astério e de outros oito investigados: Vinícius da Silva
Ferreira, Josemar Pereira, Marcelo da Silva Pereira, Viviane Ferreira Coutinho
Alves, Pedro Navarro César, Thiago Bustamante, e Danilo Botelho dos Santos,
filho do ex-procurador.
O Ministério Público Federal informou que Astério e outros 14
foram denunciados por envolvimento em pagamento de propina a conselheiros do
Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro.
A ordem de Bretas indica que a ação deflagrada nesta quinta,
batizada Titereiro, é desdobramento das operações Calicute, Eficiência,
Descontrole e Quinto do Ouro, todas decorrentes da Lava Jato, sendo que as duas
últimas foram desencadeadas para apurar corrupção no Tribunal de Contas do
Estado do Rio.
A Procuradoria cita o ex-governador Sérgio Cabral, apontado
como líder de organização criminosa que assumiu o controle de diversas áreas da
administração pública. Cabral está preso desde novembro de 2016.
Segundo a Procuradoria, com o decorrer de tais apurações foi
possível "identificar aparente atuação de Carlson e Astério no pagamento
de vantagens indevidas à organização criminosa chefiada por Sérgio Cabral, por
meio de contrato de fornecimento de alimentos firmados com a Seap".
Procurador de Justiça aposentado do Ministério Público do
Rio, Astério chefiou a pasta da Administração Penitenciária entre 2003 e 2006,
durante a gestão Rosinha Garotinho.
A investigação também contou com informações de delações,
entre elas a do ex-conselheiro de Contas Jonas Lopes de Carvalho Junior. Ele
afirmou que, quando era presidente do TCE-RJ, utilizou o Fundo Especial de
Modernização do Controle Externo da Corte para pagar empresas fornecedoras da
Seap, sendo que, em contrapartida, alguns conselheiros receberam um porcentual
dos valores.
Segundo a delação do ex-presidente do TCE fluminense, Ruy
Ferreira era responsável por recolher as propinas junto às empresas de
alimentação e as entregava a seu filho.
A decisão de Bretas apresenta ainda trecho de depoimento de
Carlson Ruy no âmbito da operação Boca de Lobo, na qual o empresário afirma que
pagou cerca de R$ 2,9 milhões em propina para os envolvidos no esquema em nome
das empresas Denjud e JB.
A atuação de Carlson Ruy, foi confirmada por Marcos Vinicius
Lips, ex-subsecretário da Sead preso na Operação Pão Nosso, diz o despacho de
Bretas. O documento também registra que Lips ainda disse que Carlson
"contava com o auxílio" de Astério.O juiz da Lava Jato do Rio
destacou que a Denjud ainda possui contratos em aberto com a administração pública
- última contratação em janeiro de 2019 - "com valores substanciais a
serem recebidos, o que também permite supor que ainda estaria em curso
operações ilícitas de desvio de dinheiro público".
Ao avaliar o caso, Bretas sinalizou que os depoimentos e
relatórios apontam para a existência de rede de pagamentos de propina
relacionada às atividades da Secretaria de Administração Penitenciária do Rio
de Janeiro, organizada pelos empresários Carlson Ruy e Astério por indicação
tanto dos conselheiros do Tribunal de Contas do Estado do Rio, quanto dos
demais integrantes da associação criminosa chefiada por Sérgio Cabral, sendo
tais valores ocultados, posteriormente por atos de lavagem de capital".
Lavagem
Em seu despacho, Bretas afirma que, além dos supostos delitos
de corrupção, Astério e Carlson teriam ocultado capital por meio de seus
parentes e auxiliares. O documento cita que o Posto Chacrinha, que tem como
sócios Marcelo Pereira, Vinícius da Silva Ferreira, filho de Carlson e Danilo
Botelho dos Santos, filho de Astério, recebeu transferências quase mensais da
empresa Denjud, entre 2015 e 2012, totalizando R$ 2.779.550,00.
O magistrado destaca informações prestadas pelo Ministério
Público referente a Viviane Ferreira Coutinho Alves, advogada que tem como
clientes a Denjud e a JB Alimentação.
Já Josemar Pereira, segundo o juiz responsável pela Lava Jato
no Rio, "parece atuar em várias frentes na dissimulação de capital da
família de Carlson", "porque figura como sócio de sociedades
empresárias, é voraz comprador de imóveis e movimenta altas quantias".
Segundo o despacho, Josemar também foi sócio da JB Alimentação e do Posto
Chacrinha.
"Ou seja, as citadas pessoas parecem ter uma vinculação
pouco transparente com a família Ruy Ferreira e a família de Astério Pereira
dos Santos, mostrando-se plausível a tese ministerial de que eram utilizadas
pessoas jurídicas e 'laranjas' para ocultar capital proveniente dos pagamentos
da Seap", escreveu Bretas.
Defesas
A reportagem busca contato com Astério Pereira dos Santos,
com o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro e com os outros
investigados. O espaço está aberto para manifestações.

