Apenas 1% dos detentos do Rio estão em presídios com hospitais, diz Ministério da Justiça

Levantamento aponta ainda que nenhuma das 50 penitenciárias do estado conta com médicos, psicólogos e assistentes sociais.

RIO — Com a terceira maior população carcerária do país, atrás de São Paulo e Minas Gerais, o Rio aparece em último lugar no cumprimento de uma série de direitos garantidos por lei aos detentos. Segundo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), divulgado pelo Ministério da Justiça, apenas 1% dos presos do estado estão em unidades com módulos de saúde, o pior índice do Brasil. O estudo aponta ainda que nenhum dos 50 presídios do estado conta com médicos, psicólogos e assistentes sociais, também a pior situação do país.
Dentro da pouca atenção dedicada à saúde, ainda existem falhas. Uma das quatro unidades que compõem o sistema, o Hospital Doutor Agostinho Vieira de Castro, no Complexo de Gericinó, tem sérios problemas de funcionamento, de acordo com a Justiça. Desembargadores da 22ª Câmara Cível deferiram neste mês, por unanimidade, um recurso da Defensoria Pública pedindo que o governo estadual cumpra medidas estabelecidas pela Vigilância Sanitária, sob pena de multa de R$ 300 mil. O núcleo de Direitos Humanos da Defensoria relata na ação que um detento contraiu tuberculose e perdeu um pulmão após tratamento no hospital, por causa das condições de insalubridade. Infiltrações e lacraias também foram vistas em uma vistoria na unidade. Segundo a decisão judicial, “existem graves denúncias de que o hospital não ostenta condições mínimas de atendimento da população carcerária” e cita as condições de “penúria” da instituição. O estado informou que já recorreu.
De acordo com a defensora pública Roberta Fraenkel, que faz visitas regulares a presídios, a deficiência no atendimento de saúde é apenas um dos muitos problemas:
— O fornecimento de água é ruim, a comida, em alguns casos, é servida em quantidade insuficiente, por causa da superlotação. O direito ao banho de sol nem sempre é respeitado, e as salas de aula não são suficientes. Já escutei reclamações de presos que queriam estudar, mas não encontraram vaga — afirmou.


Segundo o Ministério da Justiça, só 0,5% da população carcerária do Rio está matriculada em atividades educacionais, o equivalente a 207 presos. O percentual deixa o Rio à frente apenas de Alagoas (com 0,3%) no quesito. O estado tem 39.321 detentos e 28.230 vagas, o que representa um déficit de 11.091 vagas e uma relação de 1,4 preso por vaga. O estado fica em 21º no ranking das unidades da federação que apresentam os déficits mais elevados. Os dados do levantamento foram colhidos em julho do ano passado.
— A realidade carcerária é ainda muito pior do que esses números. Os direitos dos presos são estabelecidos na Constituição, na Lei de Execução Penal e no Código Penal, mas não são cumpridos — afirma a professora de direito penal Gisela França, do Ibmec e da Uerj, que estudou a relação entre o trabalho dos presos e a ressocialização no doutorado. — A pena é privativa de liberdade, mas, na realidade, se torna privativa também de dignidade e humanidade

Para a empresária Adriana Gryner, presidente da ONG Tem Quem Queira, que atua na ressocialização de detentos, a atuação do estado está muito aquém do ideial:
— O estado deveria dar condições mínimas para o detento se sentir digno, mas o que faz é reforçar a ideia de que ele (preso) não presta para nada. A cadeia vira um grande depósito de raça sub-humana — critica.
SEAP CONTESTA MINISTÉRIO DA JUSTIÇA
Em nota, a Secretaria estadual de Administração Penitenciária (Seap) contestou os números apresentados e informou que vai apurar a origem das informações enviadas ao Ministério da Justiça. A Seap afirma que conta com 80 assistentes sociais, 88 psicólogos e 84 médicos, mas não informou em quais unidades eles dão expediente. Segundo a Secretaria, são cinco hospitais penitenciários — incluindo uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Por fim, a Seap diz que 3.658 detentos estão matriculados nas 26 escolas do sistema prisional.

 

 

 

 

 

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