Lava Jato: Juiz Sérgio Moro tem obsessão pelo combate à corrupção

Curitiba: A ponte aérea, para os advogados de executivos das maiores empreiteiras do país, deixou de ser Rio-São Paulo e incluiu Curitiba, de onde são comandadas as investigações da Operação Lava Jato, que podem desestruturar grupos acostumados à impunidade. A passagem de ida e volta custa, em média, R$ 400. Fichinha perto do que se estima de desvios da Petrobras: R$ 21 bilhões. 
Quem comanda a operação, com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, é um juiz de 42 anos, de Ponta Grossa, no Paraná, de hábitos simples, sotaque forte, voz grossa e avesso a ver sua imagem na mídia. E que vê sua função, na qual ingressou aos 24 anos, em 1996, como missão. Por suspeitar da tentativa de cooptação política, rejeitou a possibilidade de se tornar desembargador.
Filho de professor, até março, quando começaram as delações premiadas de um doleiro e de um ex-diretor da Petrobras, ia de bicicleta ao trabalho, na 13ª Vara Federal de Curitiba. A pedido da família, hoje vai de carro, um Fiat Idea 2005. 
Sérgio Fernando Moro — o juiz federal que comanda a Lava Jato — colocou Brasília em suspensão. A presidenta Dilma Rousseff (PT) até tentou saber do MPF se algum dos ministeriáveis está na lista de suspeitos, e o Congresso espera para definir seu futuro, em fevereiro. “É possível que uma centena de parlamentares esteja relacionada ao esquema”, disse ao DIA um deputado federal.
O julgamento pode afetar não só a Petrobras, mas obras país afora, como as da Olimpíada. A Queiroz Galvão, uma das que tiveram executivos presos, enfrenta problemas de caixa, e uma multa milionária atrapalharia empreitadas, como a do complexo de Deodoro.
“Tudo será considerado”, explica um dos colegas de Moro, que lembra que as “empresas são grandes demais para quebrar” e que refuta que “considerá-las inidôneas pararia o Brasil”.
“Ele é especialista em lavagem de dinheiro. Pressão não o afetará”, afirmou ao DIA, sobre o colega, o juiz federal Eduardo André Brandão. Um herói? “Não”, respondeu Moro a repórteres. “Um juiz”, completou Brandão.
Operação Mãos Limpas é a inspiração
As consequências sobre empreiteiras e a política podem não ter sido planejadas por Sérgio Moro, no início da Lava Jato, em março. O foco era um posto de gasolina — daí o nome —, em Brasília, para a lavagem de dinheiro.
Mas o alvo sempre foi “a máquina que sustenta a corrupção na administração pública” — conforme escreveu num artigo sobre a operação Mãos Limpas, na Itália. Segundo um amigo de Moro, a operação italiana é sua inspiração e “quase obsessão”.
O artigo ‘Considerações sobre a Operação Mani Pulite’ dá dicas sobre a cabeça de Moro. “É ingenuidade pensar que processos criminais eficazes contra figuras poderosas, como autoridades ou empresários, possam ser conduzidos normalmente, sem reações”, disserta ele no texto.
E acrescenta: “A opinião pública, como ilustra o exemplo italiano, é essencial”. O vazamento à imprensa das delações e investigações é a constante da Lava Jato.
Especialista pela Harvard Law School, Moro foi auxiliar da ministra Rosa Weber no julgamento do Mensalão, no STF.
Avesso a falar de sua vida privada
“Discreto”. É como define Sérgio Moro seu amigo de mais duas décadas, o também juiz federal Anderson Furlan, 39 anos. Apesar do tempo de amizade, ele diz que nem sequer sabe o time para o qual torce o colega de magistratura.
Não sabe também em quem ele votou em outubro. “Não fala. É assunto do qual não participa”, diz o juiz por telefone ao DIA.
Furlan revela ainda que, incomodado com reportagens como esta — um perfil —, Moro pediu aos amigos mais próximos que não falem à imprensa. “É para que não se mude o foco de interesse público: as investigações, o esquema de corrupção na Petrobras. Não ele”, diz, acrescentando, porém: “Amigo ou não, Moro é motivo de orgulho para todos os juízes.”

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